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Sexta-feira, 25/5/2018
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Greve de caminhoneiros e estupidez econômica

Não devia escrever nada sobre greve de caminhoneiros porque não é assunto que domino. Porém vi nas redes sociais tanta besteira escrita por economistas e por ideólogos que acham que leram alguma coisa sobre economia que não resisto.

As transportadoras têm contratos e os caminhoneiros podem não conseguir aumentar os fretes para acompanhar mudanças rápidas do preço do combustível. Não é absurdo segurar preços por um mês, dando tempo ajustarem os preços.

Dá para observar isso sem deixar de entender que incentivar queima de petróleo é destrutivo para o ambiente, para a saúde da população, para o bom funcionamento da economia, e para a condução honesta de todos os assuntos da república. A burrada de construir uma sociedade inteira dependente dos caminhões foi coletiva e duradoura, demora para ser corrigida.

Nessas horas dá a impressão que politicamente as opiniões se dividem em 3 grupos: os que querem subsídio ambientalmente destrutivo aos combustíveis poluentes porque são de esquerda, os que querem subsídio socialmente destrutivo aos combustíveis poluentes porque são de direita, e uns 18 que são contra o subsídio e a destruição do patrimônio ambiental e social do país porque são meus amigos.

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Postado por O Blog do Pait
25/5/2018 às 10h36

 
Publicando no Observatório de Alberto Dines

Na minha época de colunista independente, antes do Digestivo, fui publicado, muitas vezes, pelo Observatório da Imprensa e, hoje, agradeço ao Alberto Dines.

Eu era um simples estudante recém-formado de Engenharia, que tentava emplacar meus textos (antes dos blogs e das redes sociais) - e o Observatório nunca quis saber se eu era jornalista ou se conhecia alguém na redação.

A única exigência era que o assunto fosse mídia. Como eu não tinha compromisso com ninguém (eu não era da área) e não fazia média, acabei me metendo em, pelo menos, duas polêmicas involuntárias.

Uma foi com o Jô Soares, à qual ele nunca me respondeu. Ele havia acabado de lançar seu segundo romance, ruim pra chuchu, mas, como toda a mídia dependia do programa dele, muito cotado naquela época, para fazer divulgação, ninguém tinha coragem para dizer que o rei estava nu.

Ao contrário da maioria dos resenhistas, que era só elogios, eu resolvi *ler* o romance, e era uma porcaria. Escrevi meu texto com trechos do livro, exemplificando. E minha tese era a de que todo mundo dependia do seu beneplácito, então ninguém tinha peito para lhe falar a verdade.

O texto foi parar na versão impressa do Observatório da Imprensa e mudaram o título para “O Gordo Intocável”. Eu nunca chamaria ele de “gordo”, mas tudo bem. Meu título era: “Quem tem medo do Jô Soares?” (está no Google).

O fato é que tempos depois, um jornalista inglês da BBC quis me entrevistar. E, mais tarde, eu descobri, por um amigo que foi trabalhar na mesma BBC, que, entre as “fontes” sobre Jô Soares, em todo o Brasil, eu era a única “contra”.

Meu amigo me deu essa informação aos risos. Anos depois, no auge do Digestivo, alguns Colunistas achavam que eu deveria “ir ao Jô Soares”, para falar do site. Achei que seria uma hipocrisia. E o programa acabou decaindo (para a minha sorte)...

A outra polêmica foi com o Ruy Castro. Mas essa não me impediu de conhecê-lo. E de ter um contato amigável com ele.

Foi uma vez em que o Ruy escreveu um artigo no Estadão criticando o rock’n’roll. E eu escrevi outro, em resposta ao dele: “Ruy Castro e a Mistificação do Rock” (tem no Google também).

Saiu no Observatório da Imprensa. Eu, obviamente, não conhecia o Ruy Castro. Só o admirava pelos livros.

Pois bem: o Observatório levou meu artigo a sério e ligou para o Ruy Castro - mas ele “não quis comentar”.

Hoje, conhecendo o humor dele, deve ter pensado: “Quem é esse desconhecido, que tem a cara de pau de me criticar, é publicado pelo Observatório, e ainda me pedem comentário?”.

Anos mais tarde, numa Bienal, em que fui encontrar o Sérgio Augusto, que já me lia, acabei sendo apresentado para o Ruy Castro e dei meu cartão a ele, que ficou olhando meu nome impresso, sem emitir nenhum som. Tentando quebrar o gelo, perguntei se a letra estava muito pequena - ao que ele me respondeu, com voz grave e séria: “Não, está, não. Eu enxergo muito bem!”.

Depois soube que ele indicava o Digestivo para amigos. Acabamos trocando e-mails. Conversando por telefone e pessoalmente. Já o entrevistei, mais de uma vez. E ele me manda seus livros - o que eu considero um privilégio.

Mas nunca comentamos sobre aquele meu texto no Observatório da Imprensa...

A ideia do Alberto de Dines, de fiscalizar a mídia, e principalmente os “jornalões”, rendeu uma certa notoriedade aos meus escritos, e algumas reações divertidas, como as de cima.

Além de toda a importância do Dines para a jornalismo do Brasil, ele tinha essa abertura para novas vozes - algo que não é o comum nesse meio, de indicações e de amigos de amigos.

Numa era de profusão das fake news, o slogan de “nunca mais ler jornal do mesmo jeito” soa quase ingênuo. Mas foi importante naquele momento. E, como outsider, consegui participar do O.I. e até me divertir. Descanse em paz, Alberto Dines.

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Postado por Julio Daio Bløg
23/5/2018 às 14h15

 
Entre a esperança e a fé

Neste mundo desconexo,
Tão complexo,
Vive o homem,
O Ernesto e outros mais.
Mãe que não queria ser mãe,
Pai que não conhece o filho,
Filho que vive sem pais.
E quantas coisas mais,
Neste insano mundo,
Hora fértil, fecundo,
E fenômenos colossais.
Hora fétido, imundo,
De fossos tão profundos,
Que não permite iguais.
Há um Deus chamado pai,
Esperança que não morre,
E uma fé que resiste,
Um povo em oração,
Resignado persiste,
Busca quem puxe o cordão,
Cabisbaixos lá se vão,
Por suas veredas tristes.

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Postado por Blog Feitosa dos Santos - Prosas & Poemas
18/5/2018 às 10h24

 
Tom Wolfe

Tom Wolfe era um daqueles jornalistas “maior que o jornalismo”. *Ele* era o assunto - tanto quanto o assunto sobre o qual escrevia...

Embora a comparação não seja justa - e nenhum dos dois talvez concorde -, eu o aproximo do Paulo Francis. Ambos escrevendo num estilo “apimentado”; ambos personalidades transbordantes; ambos com grande presência cênica; e ambos se metendo em polêmicas e criando inimizades “para a vida inteira”...

Leio que Plauto, o comediógrafo romano, quando escrevia uma peça, tinha de competir com toda a sorte de “atrações”, inclusive gladiadores... E como chamar a atenção do público senão exagerando bastante?

Foi o que a New Yorker escreveu sobre Tom Wolfe. Como competir com os anos 60, a música, as revoluções, a televisão... Como - sem carregar nas tintas?

Repare que o mesmo vale para Paulo Francis, que “apareceu” criticando teatro, apanhando do marido da Tônia Carrero, depois criticando Carlos Lacerda na televisão, sendo preso pela Ditadura, se auto-exilando em Nova York, metendo o pau no Brasil, acabando processado, e talvez morto, pela Petrobras...

Nelson Rodrigues, outro “exagerado” - com estilo apimentado, presença cênica, polêmicas e inimizades também -, repetia que o que é dito apenas uma vez, permanece inédito. Era uma flor de obsessão. E tinha lá as suas razões...

A diferença entre Francis e Wolfe é que o último conseguiu nos deixar mais livros, diria Piza. Francis tinha um grande efeito imediato; mas dialogava mal com a posteridade.

A crítica de Wolfe deve ficar. Não é preciso nem ler os livros para saber do que se trata - os títulos falam por si (mesmo em nossa língua): “Da Bauhaus ao nosso caos”; “A Palavra Pintada”; “Fogueira das Vaidades”...

Ele tentou ficar sério com os romances. Ou ser levando a sério. Ou ambos. Mas já era tarde demais...

Norman Mailer - um desafeto - explicou que algumas características o romancista só adquiria na juventude. Wolfe começou tarde. O Wolfe romancista, portanto, não merecia atenção...

Seja como for, a descrição da recepção oferecida aos Panteras Negras, por Leonard Bernstein, em “Radical Chique”, nunca mais saiu da minha cabeça - a ponto de eu não conseguir mais encarar Bernstein sem pensar no “Lenny” de Wolfe...

Lendo “Ficar ou não ficar”, aprendi a repetir vogais, e pontos de exclamação e interrogação, sempre em número ímpar. Fora outros truques que me ajudaram, mas que, com o tempo, eu abandonei, procurando um estilo mais sóbrio...

Sempre penso que os autores da antiguidade - os que nos chegaram - não abusavam dos pontos de exclamação, dos itálicos, das maiúsculas, nem das onomatopéias...

Ao mesmo tempo, conheci tanta gente que foi “mexer” com jornalismo por causa do Paulo Francis. (Eu, inclusive.)

Às vezes, falta uma personalidade. (Olha a nossa política...)

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Postado por Julio Daio Bløg
16/5/2018 às 09h57

 
Terra e sonhos

Do alto dos palmeirais
Vem dos canários o trinado,
Das brancas flores dos cafezais,
Vem o perfume na brisa da antemanhã.
São lembranças que não morrem,
Sobre o meu corpo escorrem,
Versos deste versejar.
As flores do ipê roxo,
Mantinha o sorriso em meu rosto,
Hoje, tão somente as lágrimas, sobre a face a rolar.
Eu gostaria de estar,
Sentado naquela pedra,
Donde eu via o sol, escondendo-se devagarinho,
Isso ainda me faz carinho,
Que não posso descrever.
Permita-me Deus, que eu viva,
Para vivenciar isso tudo outra vez,
Mesmo que seja só mais um pouquinho,
Quem sabe se o meu corpo cansado,
Ao reviver o passado,
Transborde novamente em altivez.

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Postado por Blog Feitosa dos Santos - Prosas & Poemas
16/5/2018 às 08h42

 
Que comece o espetáculo!

Eu tinha 6 anos quando os meus pais me levaram ao cinema pela primeira vez. O ano era 1997 e o filme era Titanic, não era um filme muito atraente para uma criança, mas ver as coisas acontecendo, ali na tela grande, me garantiram duas coisas: eu não viveria sem cinema e o Leonardo DiCaprio é um ator sensacional! Depois disso foram vários filmes, entre live action e animações, que foram formando minha bagagem cultural, que é bem eclética. O colegial foi uma época importante, estudava perto do cinema e uma vez ou outra eu conseguia ver os lançamentos da semana, além de pagar meia, conseguia aproveitar as promoções.

Já era agosto de 2011, quando em meio a uma daquelas minhas aventuras de ir ao cinema sozinho, para a primeira sessão do dia, onde encontrava uma sala com poucas pessoas, me surgiu a ideia de escrever sobre o que assistia naqueles dias. O filme era Planeta dos Macacos – A Origem, no já extinto portal Frequência Global, depois disso sempre tentei passar as minhas experiências de cada sessão, foram inúmeros filmes, sempre aprendendo como escrever e atrair o público para aquele universo que tanto me chamava. Depois disso vieram alguns outros portais e blogs, nos quais aprendi ainda mais, por meio de cabines de imprensa e coletivas.

Certa vez li em ‘Cinema ou sardinha’, de Guillermo Cabrera Infante, um texto que traz como título “Por quem os filmes dobram”, onde ele conta como o cinema se modifica em prol de seus espectadores, com legendas e dublagem fazendo cada película ultrapassar fronteiras políticas e culturais. Ele termina o texto dizendo que é por esses espectadores que os filmes dobram, vez ou outra me pego pensando nisso e percebo mais uma vez como o cinema pode ser grandioso, então esqueço o cansado causado pela correria do dia a dia e parte em busca de mais uma aventura na tela mágica.

Então começo mais um projeto, em busca de compartilhar minhas experiências e inspirar as pessoas a fazerem o mesmo, como acontece comigo quando leio análises de críticos que admiro. Espero que todos tenham uma boa leitura e em seguida uma extraordinárias sessões!

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Postado por A Lanterna Mágica
14/5/2018 às 14h51

 
A alforja de minha mãe

Para Norma, Feliciano, Leslie, Julie e Susie

Carregando, sem mágoas,
coisas que o mundo exige do feminino,
a alforja de minha mãe acalenta o fôlego da vida.
Às dobras do tempo, a alforja de minha mãe
traz numa oração a fé que suportou dias de penúria
quando a sobrevivência movia as mãos
que fizeram na medida certa
o redondo dos docinhos.

Tal um ninho de dádivas, a alforja de minha mãe
até hoje alegra os dedos que costuravam roupas.
E guarda agulhas que cerziram o vestido roto
e os casaquinhos das crianças.

Berço acolhedor, a alforja de minha mãe
embalou com bons augúrios o remédio dos filhos.
Seguindo a magia dos ritos, a alforja de minha mãe
preserva o fogo sagrado que no dia a dia cozinhava
nosso alimento. E até hoje amadurece o abacate
para a refeição do pai.

Em meio ao trabalho, esse abrigo
se dispõe ao plantio das gérberas do jardim.
Aos percalços da vida, essa alforja
nunca se esvaziou do afeto por todos nós.
Com carinho, olha o retrato dos amigos
e registra palavras ouvidas na infância.

Na alforja de minha mãe,
há também espaços reservados à esperança.
Do lado do coração, acolhe a América Latina
onde nascemos à espera de algo
que ainda não aconteceu.

Assumindo-se útero e oferenda,
a alforja de minha mãe
guarda o ovo do quetzal azul e branco
que um dia nos anunciará
igualdade e liberdade
para todas as etnias.

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Postado por Blog da Mirian
12/5/2018 às 18h27

 
Filosofia no colégio

Fiz uma leitura do artigo EFEITOS DA INSERÇÃO DAS DISCIPLINAS DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA NO ENSINO MÉDIO SOBRE O DESEMPENHO ESCOLAR
de Thais Waideman Niquito e Adolfo Sachsida, abril 2018. Um parecer de revisor seguiria as seguintes linhas.

O artigo apresenta 2 modelos lineares, as equações (1) e (2). Não fica claro qual dos modelos é usado, se algum deles. A modelagem consistiria em calcular valores dos parâmetros beta ou alpha, mas os parâmetros só aparecem uma vez no artigo. Sem explicitar a relação com os modelos, não é possível interpretar as tabelas.

Há variáveis indefinidas ou definidas multiplamente. Exemplo: O vetor de covariadas X_{it} contém dados dos indivíduos como dito após (1), ou das escolas como após (2)? O parâmetro epsilon também é multiplamente definido. As tabelas deixam dúvida sobre qual exatamente são as variáveis listadas. Parece ser apenas um problema de redação.

Os valores p são indicados com 1, 2, ou 3 asteriscos. E os números sem asterisco, qual a significância? Considerando que são apresentadas dezenas de variações, positivas e negativas, é provável que apareçam correlações meramente aleatórias com probabilidade individual menor que 5%.

Já que o artigo na forma distribuída não faz a conexão entre modelo e as tabelas, minha leitura tem que se restringir ao texto. A dúvida mais evidente é que as pioras referidas são da ordem de 1% do desvio padrão - quantidades muito pequenas em vista das mudanças qualitativas nos exames e nas mudanças de tamanho e composição dos estudantes mostradas na tabela 3.1. Minha maior dúvida é que a análise de efeito é forçosamente diferencial - mede a diferença entre as notas em um ano e outro. Mas as medidas são muito ruidosas, e a diferença entre medidas tem uma relação sinal-ruído baixa. Para ter uma noção disso seria indispensável saber algo sobre os parâmetros alpha, beta, e epsilon, que aparecem nos modelos mas não são discutidos na sequência.

A relação de causalidade expressa no resumo "Os resultados mostram efeito negativo da inclusão dessas disciplinas sobre diversas áreas do conhecimento, sobretudo sobre o desempenho em matemática" não encontra justificativa no artigo. Mesmo se variações significativas fossem detectadas, o que não fica claro devido às observações anteriores, é possível imaginar inúmeros mecanismos explicativos que não a causalidade. Por exemplo: auto-seleção da introdução de novas disciplinas por escola e por aluno correlacionada com desempenho. Mesmo um mecanismo fraco de causa comum poderia explicar as pequenas variações detectadas.

Outra possibilidade é que mudanças curriculares, concomitantes mas não necessariamente coincidentes com a introdução de novas disciplinas, tenham tido efeito de aumentar ou diminuir a preparação dos estudantes para exames padronizados, ou para seções dos exames. Isso poderia refletir o julgamento de algumas escolas e alunos de que a finalidade do ensino não é a preparação para o Enem.

Em resumo: embora possa conter contribuições publicáveis, o artigo é pouco acessível na forma como foi redigido. As afirmações feitas não estão devidamente apoiadas pela análise dos dados. A metodologia é discutível e, na forma apresentada, insuficiente para estabelecer causalidade.

(Enviei o texto acima ao 2o autor, que gentilmente disponibilizou preprint. Já que o artigo foi bastante comentado nas redes sociais, não me parece inadequado dar minha opinião nesse blog.)

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Postado por O Blog do Pait
4/5/2018 às 11h24

 
ZERO ABSOLUTO

Perdera-se de si mesmo: ignorava por que fora parar preso entre as quatro paredes de pedra daquela masmorra medieval em pleno século XXI, nas mãos de cruéis torturadores da Inquisição, acorrentado a uma tábua que ao girar de uma roda, manipulada por um carrasco esticava seu corpo até seus ossos estalarem, provocando uma dor lacerante que o fazia uivar em desespero, para confessar algo que nem vivera. Estava deslocado no tempo e no espaço e achava que enlouquecera.

Foi acordado com seus próprios gritos, suando em bicas e todo urinado. Que merda! xingou e correu até o banheiro para vomitar às pressas. Lavou o rosto e uma súbita sensação de estranhamento o dominou. Será que tudo aquilo não passara de um sonho, ou melhor, um pesadelo, ou será que não?...

Não sabia responder. Achava-se como um fugitivo de uma bolha do tempo, de onde escapara para uma nova vida, por artes bizarras, quem sabe até arcanas, que lhe evocavam resquícios de ocultismos e de magias.

Como quer que fosse, era foçado a começar do nada, do zero absoluto, como se voltasse ao ensino primário, aprendendo aritmética, as quatro operações, e voltando àquele suplício, que iria durar muitos anos que já não lhe restavam, seu horizonte temporal prenunciando a chegada do inverno de sua existência. Logo, logo, chegaria ao zero absoluto.

Não, não haveria tempo para reaprender álgebra. Meno male — o que já era um consolo.

Devia andar pela casa dos oitenta, segundo o testemunho dos vizinhos, aquele idoso polido, mas casmurro. Ouviam-no cantarolar às vezes alguns pedaços de árias que eles desconheciam, enquanto lavava a roupa no tanque ou tomava um banho, até outro morador idoso como ele reconhecer as tais cantilenas desconhecidas pelos demais, decifrando o enigma que embasbacava muitos moradores: eram árias, ou seja, partes de óperas. Então a cegueira linguística que toldava os olhos alheios desapareceu e abriu-se uma abertura para a luz...

Depois de seu banho matutino, aquele octogenário sistemático e casmurro ia à padaria comprar uma baguete ainda quentinha e o jornal do dia. Era um homem de hábitos austeros. De seus haveres, nada se sabia, apenas que não deixava de pagar suas dívidas, disso ninguém duvidava nem duvida, pois na portaria do prédio antigo e malconservado jamais chegou qualquer aviso de cobrança em seu nome.

Aos que, por mera curiosidade, mais que justificável e natural, devo responder-lhes com uma pergunta: num texto ficcional onde tudo é de mentira para que nominá-lo, se não tem certidão de nascimento, carteira de identidade, CPF etc. etc. etc.?...

Deem a ele o nome que lhes aprouver: Manuel, Sócrates, Eliot, Gaudí, La Fontaine, Freud, Goete, Van Gogh, Jacob, Rachmaninoff, o que quiserem — e tudo não passará de um rótulo, mero pedaço de papel que se cola em frascos, latas e embalagens de todo tipo.

Mas a curiosidade humana não tem limites. Às escondidas, abriram até a lata de lixo em frente à porta daquele velho casmurro e sistemático em busca de alguma pista e nada acharam além de uma caixa de leite desnatado, cascas de legumes de bananas, tiras de papel higiênico usadas para o que servem, enfim coisas irrisórias até para aqueles indivíduos da espécie saprofítica, que, conforme consabido, se nutem da podridão.

Na vida, porém, deixamos rastros visíveis e invisíveis. Estes, aliás, são os mais significativos, e se ocultam no acervo de ecos e de sombras que carregamos na mais recôndita memória, o que, de resto, não constitui novidade alguma sob o sol. Ali estão nossos segredos, nossos medos, nossas covardias, nossos amores, rancores e toda sorte de coisas que nos causam constrangimentos, nesse baú sem alça, que com enorme sacrifício somos forçados a levar conosco e pesam, pesam muito, além provocar pesares, como a hipocrisia e o farisaísmo com que nos portamos muitas vezes. Mas é melhor parar por aqui, para alívio nosso e felicidade geral da nação.

Trocou a rosa solitária na jarra de pescoço fino e longo, que discretamente fazia companhia à foto de uma bela senhora de aproximadamente quarenta anos, num ritual que a cada semana se repetia naquela sala modesta, onde mal cabia a mesa com quatro cadeiras, duas poltronas de espaldar alto e um armário baixo, que ele não conseguia identificar se era um buffet ou um étagère, antiga herança de família que lhe coube em sorte, à falta de outro herdeiro interessado.

Não saberia se fora isso ou algo completamente diferente. Seria ele um fugitivo de outra vida, vivida aqui mesmo, sabido que somos vários ao variar dos tempos? Recusava-se a refletir a respeito, embora a dúvida que o assaltava com certa frequência, que ele enxotava aos pontapés, sem buscar refúgio em teorias anímicas, às quais tachava de muletas metafísicas, nos momentos de ácida ironia.

Sobreviver a todos os amigos é a maior desgraça que pode acontecer a um homem — lera recentemente num livro de um autor de sucesso, cujo nome perdera nas lacunas infindáveis da memória. Grande verdade esta, ele comentava, às vezes, para a jovem senhora da foto, que franzia a testa para ele. Seria caduquice, ilusão de ótica, mas como, se já ocorrera toda vez que tocava no assunto e ela reagia assim? Melhor deixar quieto, como falam agora.

Talvez mosca quase despercebida no início destas páginas pudesse revelar o conteúdo do monólogo do velho casmurro e sistemático ante o retrato, mas seria exigir muito de um reles inseto, díptero e impertinente. Não estamos mais no tempo das prosopopeias e ponto. Manda a humana razão se conclua que para ali fora a mosca não por bisbilhotice, mas pelo odor da rosa emurchecente trocada por outra rosa em pleno viço, pois bem conhecido é o gosto do moscardo pela natureza morta em processo de decomposição.

Pelas frestas da veneziana descascada filtrava-se um caminho de luz iridescente, onde o brilho das partículas de poeira em suspensão era o luciluzir dos astros e estrelas dentro da sala acanhada. O velho casmurro e sistemático olhou aquela cena inusitada, mas continuou aferrado ao seu negativismo teimoso e mal-humorado, eu não preciso disso, prefiro as praias infindas de brancas areias e mares de um azul sereno, que revisito quando fecho os olhos, não em sonho e sim desperto. Visões encantatórias abriam-se então às suas retinas cansadas, com a concretude e clareza das coisas presentes. Quem sabe um dia, revisitaria, de fato, esses lugares mágicos e inefáveis. Era um projeto seu, talvez o último ou, quem sabe, um devaneio senil. Restou-lhe a dúvida...

... e aquela mosca pousada em seu ouvido esquerdo, sem qualquer gesto que a repelisse. Antes de explorar o labirinto dos ouvidos, que acenava com muitos prazeres para o seu paladar, a mosca, bem à vontade, esfregou as patas dianteiras uma na outra, daquele modo ancestral que todas as moscas fazem, à semelhança dos seres humanos ao lavarem as mãos, e preparou-se para o banquete...

Ayrton Pereira da Silva



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Postado por Impressões Digitais
3/5/2018 às 17h07

 
Go é um jogo mais simples do que imaginávamos

AlphaGo da Google, e agora OpenGo do Facebook. Um inesperado triunfo da moderna ciência europeia sobre a milenar sabedoria asiática: o jogo japonês e chinês foi conquistado por ingleses e californianos. Demorou 20 anos porque a literatura do xadrez era muito superior, capaz de explicar o caminho para a vitória de uma forma que os computadores entenderam facilmente. A literatura do Go era menos precisa, e o domínio do jogo exigiu força bruta.

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Postado por O Blog do Pait
3/5/2018 às 16h10

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